Na minha humana, e por isso, errante, medíocre e pequena concepção, saudade é um sentimento que se divide, inicialmente, em duas: a saudade prática e a saudade teimosa.
A saudade prática temos de tudo aquilo que já vivemos, de tudo o que já almejamos, das pessoas com as quais vivemos, e até mesmo de situações “normais”, tolas, mas que na sua simplicidade, trouxeram-nos ensinamentos únicos e memoráveis, que levamos pra toda nossa pequena passagem pela Terra. Mas há ainda outra saudade, a menos funcional, que temos não só de quem esteve conosco, nem do que vivemos, mas daquilo que projetamos. É uma mistura densa e perigosa de frustração e saudade. É um sentimento limitador, que atordoa e fere, dia a dia, a cada momento, o coração de quem a sente. Não apresenta referências diretas, mas sim, “relâmpagos”de aquilo que poderia ter vivido, do que poderia ter planejado e do que poderia, caso tivesse optado por outros caminhos, planejar pra seu futuro, agora tão mais próximo e urgente. Junto a essa última saudade, traz-se uma bomba-relógio que “tic-taca” no peito, ansiosamente, na espera pela coragem do reconhecimento do erro e na busca, enfim, pelo conserto dos erros, pela reconciliação e no atingimento, enfim, da suprema felicidade. Apresenta riscos se essa ousadia nunca chegar a níveis seguros, capazes de motivar o indivíduo que, frustrado, prosta-se a esperar o momento em que tivera coragem suficiente pra ir ao encontro daquilo que tanto deseja, sem talvez nunca tê-lo tido.
A primeira saudade é digna dos que amaram, durante algum tempo, ainda que sem saber, algo, alguém ou algum momento, período ou lugar de suas vidas, mas, cientes de que aproveitaram tudo o que tinham naquele momento a aproveitar, estão descansados, de consciência limpa, esperando novos desafios, novas pessoas e experiências, novos sentimentos, uma nova vida, quem sabe!
A segunda, amarga de tanta ansiedade, corrói e tranca os caminhos de quem tenta amar, viver e conhecer mais coisas. Sabe ela que, teimando da forma como teima, um dia cansará o peito de quem a sente, e essa pessoa, de duas alternativas, terá apenas uma: ou enfrenta a situação e se enfrenta o próprio querer, ou morre, de tanto querer, sem nada mais, nem ninguém querer.
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